Todos nós somos um mistério para os outros
A formulação é breve e tem o tom de constatação serena. “Todos nós somos um mistério para os outros.” A frase não dramatiza, não lamenta, apenas registra que a transparência intersubjetiva é impossível. O que cada um sabe de si excede sempre o que o outro pode saber, e o que o outro sabe de cada um é sempre uma reconstrução parcial.
A tese tem profundidade filosófica considerável. Está em Levinas, no rosto do outro como abertura para uma alteridade irredutível. Está em Sartre, na opacidade do outro como problema para o “para-si”. Está em Wittgenstein, no paradoxo do “beetle in a box” das “Investigações Filosóficas”. Veríssimo, sem terminologia técnica, formula a intuição central dessas tradições em frase de uma linha.
Do ponto de vista da prática romanesca, a frase é também declaração de método. Veríssimo é conhecido pela construção horizontal de personagens — em “Caminhos Cruzados”, em “Olhai os Lírios”, na trilogia inteira, ele acompanha vários sujeitos em paralelo sem privilegiar a interioridade de nenhum deles. Cada personagem permanece, para os outros, um mistério parcial, e o romance se constrói nas zonas de não saber. O contraste com o romance psicológico tipo Henry James é claro: Veríssimo prefere a opacidade compartilhada à introspecção exaustiva.
