Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando
Ana Terra é uma das personagens fundadoras da trilogia “O Tempo e o Vento”. Filha de pioneiros estabelecidos no continente de São Pedro do Rio Grande, ela atravessa, em algumas dezenas de páginas, três tragédias sucessivas: o engravidamento por Pedro Missioneiro, índio guarani que é morto pelo pai e pelos irmãos; o assassinato dos homens da família por castelhanos invasores; o estupro coletivo que ela e a cunhada sofrem na sequência. A história de Ana é, em parte, a fundação mítica da família Terra-Cambará-Amaral.
A frase é dela. “Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando.” Ana repete a observação ao longo do episódio, e a frase adquire estatuto de marca pessoal. O vento, no Rio Grande do Sul, é o pampero ou o minuano, vento sul que cruza o pampa carregando frio e poeira. Em Veríssimo, ele opera como índice meteorológico de evento, mas também como personagem coletivo que dá nome ao título da trilogia.
A formulação é muito pouco letrada. Ana é praticamente analfabeta, não fala sobre o vento como metáfora, ela apenas registra a coincidência empírica. É essa simplicidade que a torna eficaz. O vento, para Ana, não simboliza o destino, ele é o sinal que o destino emite. A diferença entre símbolo e sinal importa: símbolo carrega significado, sinal apenas indica que algo está se aproximando. A teologia do livro é a do sinal, não a do símbolo.
