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Quem está com fome fica surdo até mesmo

“Um Lugar ao Sol” (1936) é o terceiro romance do ciclo porto-alegrense, depois de “Clarissa” (1933) e “Caminhos Cruzados” (1935). Acompanha personagens que reaparecem ao longo do ciclo, em particular Vasco Bruno e a própria Clarissa, agora adultos, e tematiza a luta pelo lugar próprio numa cidade que cresce e estratifica. A frase pertence a uma das passagens em que a fome aparece não como acidente, mas como condição estrutural.

A formulação é elíptica. “Quem está com fome fica surdo até mesmo” abre uma comparação que o leitor precisa completar. O implícito é forte: surdo até mesmo aos sons mais imediatos, ou às palavras mais bem-intencionadas, ou à música, ou à pregação ética. A fome corta o sujeito do mundo simbólico antes de matá-lo no plano biológico.

A tese é materialista, mas Veríssimo não a converte em dogma. O romance mostra que ouvir só é possível depois de comer, e que qualquer projeto de educação, redenção ou cidadania precisa primeiro garantir o mínimo. A frase entra na linhagem brasileira que vai de Antônio Vieira (“primeiro vivamos, depois filosofemos”) a Josué de Castro, e seu lugar na obra de Veríssimo confirma o socialismo difuso, humanista, que percorre todos os seus romances dos anos 1930.