A progressão social repousa essencialmente sobre a morte
A formulação completa diz que “os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”. A tese é sociológica e antiga, está em Auguste Comte, que escreveu que a humanidade é composta de mais mortos do que vivos. Veríssimo a recoloca dentro de um romance cuja premissa é literalmente o retorno dos mortos, e a frase ganha, no contexto, uma ironia que ela não teria como aforismo solto.
Em “Incidente em Antares”, os sete defuntos que se recusam a apodrecer voltam à cidade para acertar contas com os vivos, e o que eles trazem é justamente a memória: dívidas não pagas, segredos sexuais, crimes acobertados, traições políticas. Eles são “a progressão social” reaparecendo em pessoa. A cidade tinha aprendido a viver com seus mortos enquanto eles permaneciam mortos, e o desarranjo começa quando a fronteira é atravessada.
A leitura do livro como alegoria política se apoia parcialmente nessa frase. O Brasil de 1971 era governado por mortos no sentido literal: herdeiros de oligarquias rurais, restos do integralismo dos anos 1930, militares formados na Guerra Fria. O romance figurava esse governo como atraso patológico. Quando os mortos reaparecem em Antares, é a estrutura mesma do poder que se vê desnudada, porque ela sempre dependeu da morte deles para funcionar.
