Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

No Brasil devemos ser pessimistas a prazo curto e otimistas a prazo longo

A frase aparece em “Incidente em Antares” como diagnóstico de um personagem sobre o Brasil. A formulação é simétrica e útil: dois pares opostos articulados por uma escala temporal. Pessimismo e otimismo deixam de ser disposições de personalidade e viram leituras de horizontes diferentes do mesmo país.

O esquema funciona porque admite que ambas as leituras estejam corretas ao mesmo tempo. No prazo curto, o que se vê é violência, desigualdade, ditadura, e o pessimismo é simples realismo. No prazo longo, alguma coisa se move, alguma forma de inclusão acontece, e o otimismo é também leitura empírica. A frase opera como tese sobre como a política brasileira corre em duas escalas que não conversam diretamente, longe de qualquer ecletismo ou evasão.

Publicada em 1971, em pleno milagre econômico e em pleno aparelho repressivo do AI-5, a frase carregava aposta visível. Veríssimo morreria em 1975, sem ver a abertura, mas a posição que a frase assume — não capitular ao curto prazo sem por isso fingir que ele não existe — é uma forma de sobrevivência intelectual que muitos autores brasileiros compartilharam naqueles anos. A frase circula hoje fora do romance como aforismo, geralmente sem indicação da personagem que a profere.