Nenhum escritor pode criar do nada
A frase é tomada de entrevista publicada na Folha de São Paulo em junho de 1970, quando Veríssimo já era autor consagrado e estava a um ano de publicar “Incidente em Antares”. A declaração ataca diretamente o mito romântico do gênio criador, segundo o qual o escritor inventa do nada um mundo próprio. Veríssimo desmonta essa imagem em uma frase.
A posição é coerente com toda a obra. Os romances de Veríssimo são notórios pelo trabalho documental que os antecede. “O Continente” foi precedido de leitura sistemática da historiografia gaúcha, das missões jesuíticas, da Guerra Cisplatina, das guerras civis sul-rio-grandenses. “O Senhor Embaixador” foi precedido de observação direta dos diplomatas latino-americanos com quem Veríssimo conviveu em Washington entre 1953 e 1956, quando dirigiu o Departamento de Assuntos Culturais da OEA. “Incidente em Antares” foi precedido de leitura da imprensa brasileira de 1963.
A frase implica também posição ética. Se ninguém cria do nada, então a literatura é dívida visível com a experiência alheia, com os livros lidos, com as pessoas conhecidas. O escritor opera como mediador do que produz, sem condição de proprietário. Em 1970, dizer isso publicamente, em país onde o regime militar perseguia escritores e cultivava o mito da originalidade nacional, era também recusar a gestão autoritária da cultura.
