O mundo seria insuportável se as criaturas tivessem boa memória
A frase opera uma inversão calculada. A tradição moral tende a louvar a boa memória — gratidão pelos benefícios recebidos, fidelidade aos compromissos assumidos, lealdade às pessoas amadas — e a tratar o esquecimento como falha. Veríssimo registra o avesso: se as criaturas lembrassem mesmo de tudo, o mundo se tornaria insuportável.
A tese tem precedente em Borges com “Funes, o memorioso”, conto de 1942 sobre um homem incapaz de esquecer, e em Nietzsche, que na “Segunda Consideração Intempestiva” defende o esquecimento ativo como condição da saúde individual e coletiva. Veríssimo escreve em 1938, antes do Borges, e provavelmente sem leitura direta do Nietzsche, mas chega a uma formulação aparentada por outra via, a do romance social: as relações humanas, em particular as familiares e as conjugais, só funcionam porque os participantes esquecem seletivamente as ofensas, os ressentimentos, os pequenos atos de mesquinharia.
A frase está colocada num romance que é, em parte, sobre cartas relidas depois da morte da remetente. Eugênio relê Olívia justamente porque ela morreu, e a leitura lhe devolve o que ele tinha esquecido. O paradoxo do livro é que o esquecimento permite a vida cotidiana, mas a memória, quando volta, é o que recoloca o personagem diante de si mesmo. Sem esquecimento, vida é insuportável; sem memória, vida é leviana.
