O médico sai do quarto n.º 122
O romance abre com o médico saindo do quarto 122 e a enfermeira Isolda vindo ao seu encontro. “Avise o Dr. Eugênio. É um caso perdido, questão de horas, talvez de minutos.” A primeira página já estabelece que alguém está morrendo, e que a notícia precisa ser entregue ao protagonista, mas o leitor ainda não sabe que a paciente é Olívia.
A escolha estrutural é deliberada. Veríssimo abre pela morte e em seguida volta no tempo para reconstruir a vida de Eugênio, da pobreza à formação médica, e o reencontro com Olívia que conduz de volta àquele quarto. A primeira linha é portanto a última cena ordenada cronologicamente, e o romance inteiro consiste em explicar como se chega a ela. Essa estrutura em flashback aproxima o livro de “Crônica de uma Morte Anunciada” muito antes de Gabriel García Márquez.
O número 122 não tem simbologia explícita no texto. O efeito é de precisão administrativa. O hospital catalogou a morte como uma entrada num registro, e o romance vai recuperar, atrás desse número, o nome próprio e a história. O movimento é o da literatura contra a estatística.
