Acho que o homem é um animal agressivo
A frase aparece na p. 187 do volume original e formula uma antropologia pessimista que Veríssimo, no fim da vida, reconhecia em si mesmo. O homem é animal antes de ser cidadão, e o adjetivo “agressivo” capta a parte que escapa às instituições civilizatórias. A formulação é declarativa, sem ornamento, e sua brevidade é eficiente.
A tese é hobbesiana sem ser hobbesiana. Não há, em Veríssimo, contrato social explícito que neutralize a agressividade. Há apenas o reconhecimento de que ela existe e de que precisa ser administrada por costumes, por leis, por afetos, sem nunca ser eliminada. Konrad Lorenz, etologista austríaco, publicaria “On Aggression” em 1963, e a tese chegaria ao público brasileiro nos anos seguintes. Veríssimo provavelmente conhecia o argumento, mas não cita Lorenz, e a frase é mais próxima da tradição moralista francesa de La Rochefoucauld do que de qualquer escola científica.
Em “Incidente em Antares”, a agressividade aparece em escalas diferentes. Há a agressão direta dos crimes que os mortos denunciam: assassinatos, espancamentos, estupros. Há a agressão estrutural da exploração econômica e da exclusão política. Há a agressão verbal das fofocas, das injúrias, das traições mútuas. A frase abrange o conjunto. O livro inteiro pode ser lido como inventário documentado da agressividade na vida pequeno-burguesa brasileira.
