Gosto da vida. É um desafio permanente
A formulação completa, em “Incidente em Antares”, articula gosto pela vida e desafio: “Se ela é absurda, sem sentido, então procuremos dar-lhe um sentido.” O movimento é o de um existencialismo declarado, próximo do Camus de “O Mito de Sísifo”, mas sem o vocabulário fenomenológico francês. Veríssimo passa pelo problema do absurdo como quem o reconhece e o devolve à prática.
A estrutura é condicional, não dogmática. Se a vida é absurda — premissa que o livro inteiro, com seus mortos insepultos e sua cidade-microcosmo, não desmente —, então o que resta é fabricar sentido. O verbo “procurar” indica que o sentido não está dado, e o “dar-lhe” indica que o sujeito é o agente. A vida não tem sentido, mas pode receber um.
A frase é dita por uma das personagens vivas em meio ao impasse do enterro suspenso. No livro, ela contrasta com o cinismo dos coronéis e dos comerciantes locais, que já desistiram de buscar qualquer sentido e se contentam com o jogo de cartas e a manutenção do status quo. Para Veríssimo, “gostar da vida” é precisamente o que separa quem ainda procura de quem já desistiu, e o desafio nomeado na frase é o de continuar procurando contra a evidência do absurdo.
