O fio que prende a sua fé
A formulação completa, registrada por Wikiquote a partir da p. 188 da edição original, abre com “O fio que prende a sua fé deve ser” e segue desenvolvendo a imagem. O contraste implícito é com as metáforas tradicionais da fé como rocha, alicerce, coluna. Veríssimo escolhe a imagem oposta: a fé como fio, isto é, como elemento fino, sob tensão, sujeito a se romper.
A imagem dialoga com a tradição protestante na qual Veríssimo foi educado. Sua família era de descendentes alemães presbiterianos no Rio Grande do Sul, e a teologia reformada, em particular a calvinista, costuma tratar a fé como dom precário que precisa ser renovado dia a dia. Em vez de mérito acumulado, vale como confiança que pode falhar. A imagem do fio capta isso melhor do que a imagem da rocha.
Em “Incidente em Antares”, o tema da fé aparece em vários personagens, com sinais opostos. O farmacêutico Cícero Branco é cético programático. A beata Quitéria de Campolargo tem fé que o romance trata como fanatismo. O padre Gerôncio é figura ambígua, mediadora entre o púlpito e os interesses dos coronéis. A frase sobre o fio aplica-se a personagens cuja fé é genuína, mas que reconhecem sua fragilidade. Para Veríssimo, parece ser este o único modo respeitável de crer: sabendo que o fio pode se romper, e por isso mesmo cuidando dele com atenção.
