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❝ Citação

Não há nada que melhor ilustre a moral egoísta do que a fábula da cigarra e da formiga

A fábula da cigarra e da formiga, na versão de La Fontaine que circula nos manuais escolares, é entregue como elogio da poupança e da previdência. A cigarra cantou no verão, não estocou comida, e no inverno bate à porta da formiga pedindo abrigo. A formiga recusa. A moral oficial é que cigarra-imprevidente recebe o que merece.

Veríssimo lê a mesma fábula como ilustração de “moral egoísta”. A inversão é notável e deliberada. O que a versão escolar apresenta como virtude — recusar o pedido, fechar a porta, manter o estoque — vira o nome próprio do problema moral. A formiga, longe de exemplar, vira sintoma. A cigarra, longe de fracasso, ocupa o lugar da vítima. A frase desloca o leitor da posição de quem recebe a moral para a posição de quem a critica.

A leitura tem genealogia clara. O próprio La Fontaine, no século XVII, já era ambíguo sobre quem ele admirava na fábula. Charles Péguy, no início do século XX, escreveu defesas da cigarra contra a formiga. Dentro do romance de Veríssimo, a frase serve para distinguir Eugênio, jovem médico tentado pela formiga, de Olívia, que lhe lembra da cigarra. A operação ética central do livro é essa: convencer Eugênio de que a moral burguesa que ele está prestes a abraçar é precisamente o que a fábula, bem lida, condena.