Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

'Cada um de nós' — diálogo sobre a singularidade em Incidente em Antares

A frase abre com “E eu acho, meu caro, que cada um de nós” e segue como interpolação reflexiva num diálogo do romance de 1971. Wikiquote registra a citação atribuindo-a à p. 145 da edição original da Editora Globo. O contexto é o segundo bloco do livro, que se passa em torno do enterro suspenso e dos defuntos que voltam.

A construção retórica é importante. “Eu acho” é hesitação aparente, mas o “meu caro” é endereçamento direto que estabelece uma cumplicidade entre falante e ouvinte. A frase se posiciona, portanto, como afirmação dialógica, não como sentença monológica. É típico do procedimento de Veríssimo: as teses do romance aparecem em conversa, raramente em narração onisciente, e o leitor é convidado a participar da argumentação como se fosse o “meu caro” interpelado.

A tese da singularidade individual é, em “Incidente em Antares”, contraponto à força niveladora da morte e da política. O romance mostra os defuntos voltando como tipos sociais — o coronel, o operário, a prostituta —, mas os faz falar como indivíduos, com biografias próprias. A frase nomeia a tensão central: cada pessoa carrega uma história única que a sociologia das classes só consegue captar em parte. O humanismo de Veríssimo, neste ponto, é fundamentalmente narrativo: cada um merece ser contado, e contado em primeira voz.