Acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo
A passagem completa diz: “Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”
A imagem da lâmpada vem de uma cena autobiográfica que Veríssimo conta no livro. Aos quatorze anos, segurou uma lâmpada elétrica enquanto um médico operava um homem ferido. A náusea e o horror eram concretos, e a tarefa era literal: não soltar a luz. A passagem transpõe esse gesto em programa de escritor. A literatura é uma forma de iluminação parcial, modesta, e o seu valor está em não desertar.
Escrita em 1973, em pleno governo Médici, a formulação tem destinatário. “Atrocidades e injustiças como a nossa” nomeia, sem nomear, a ditadura militar brasileira. A escala descendente — lâmpada elétrica, vela, fósforo — é uma teoria do mínimo: mesmo quando todos os meios falham, ainda resta o gesto de riscar. O texto inverte a metáfora corrente da literatura como espelho ou como martelo. Aqui ela é farol, e farol fraco, mas mantido aceso.
