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Dumont, Homo Hierarchicus e o holismo indiano

00:22:58 — citação no podcast Vox

Louis Dumont (1911–1998), antropólogo francês, dedicou parte central de sua obra ao estudo da Índia e à comparação estrutural entre Índia e Ocidente moderno. Em Homo Hierarchicus: Le système des castes et ses implications (1966), examina o sistema de castas para extrair uma ideologia subjacente — a hierarquia como princípio organizador do social — e contrapô-la à ideologia individualista do Ocidente moderno, mais tarde aprofundada em Essais sur l’individualisme (1983).

A oposição central é entre holismo e individualismo: na sociedade indiana tradicional o valor recai sobre o todo coletivo (família, casta, comunidade), e a pessoa é definida por seu lugar relacional na hierarquia; no Ocidente moderno, o indivíduo — autônomo, indivisível, dotado de núcleo interno — é o valor último.

No primeiro episódio de É Tudo Culpa da Cultura, Fabíola Gomes invoca Dumont para fundamentar o contraste que estrutura sua pesquisa sobre casamento na Índia: porque o valor é o coletivo, o casamento não pode ser entregue à escolha individual; ele é o que faz sociedade, faz grupo, faz família, e por isso precisa ser arranjado pelos mais velhos. Em seguida, ela amplia o contraste com a noção de divíduo — terminologia da antropologia da Ásia que se desenvolveu para além de Dumont — para descrever a pessoa como nó posicional de relações, não como núcleo autônomo.