Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo
O poema homônimo do livro de 1940 abre com a constatação aritmética: duas mãos, um sentimento de tudo. A desproporção é o assunto. O sujeito que fala não consegue agir sobre o que sente; o tamanho da emoção excede o tamanho do corpo que a hospeda. O poema continua reconhecendo a passagem do tempo no corpo do sujeito, “estou cheio de espaço”, e a impossibilidade de organizar o sentimento numa ação proporcional.
A imagem das duas mãos é um motivo recorrente em Drummond e ganha força porque é literal. Não é metáfora de capacidade limitada; é mão. O instrumento físico de ação humana, o par. Diante da convocação que o título do livro faz, sentir o mundo inteiro com seus acontecimentos políticos imediatos, o sujeito tem duas mãos. A fração entre o numerador (sentimento ilimitado) e o denominador (par de mãos) é o problema do livro inteiro.
O crítico Silviano Santiago, citado no verbete da Wikipédia sobre o livro, descreve a coletânea como visão “sombria e pessimista” justaposta a “esperança de revolução e utopia”. O poema-título performa essa justaposição em dois versos. A constatação de impotência convive com a confirmação de que o sentimento existe, e em magnitude que importa. O problema do livro está na aritmética do que se pode fazer com o afeto, não na sua escassez.
