Penetra surdamente no reino das palavras
“A Rosa do Povo” é o livro mais ambicioso de Drummond, com 55 poemas escritos entre 1943 e 1945, no fim da Era Vargas e no fim da Segunda Guerra. Dentro dele, “Procura da Poesia” é uma arte poética em forma negativa: lista o que o poeta não deve fazer. A formulação central é o mandamento “Penetra surdamente no reino das palavras”. O advérbio “surdamente” é a chave — a entrada não se anuncia, não se cumpre como ato heróico.
O poema enuncia uma série de proibições. “Não faças versos sobre acontecimentos.” “Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.” “Não dramatizes, não invoques, / não indagues. Não percas tempo em mentir.” A lista vai recortando o que sobra para a poesia depois de tirados os assuntos óbvios — autobiografia, geografia, sentimentalismo, retórica. O que sobra é o “reino das palavras”, território onde elas existem antes de qualquer aplicação.
O movimento é importante para situar Drummond na sua trajetória. O autor de “Sentimento do Mundo” (1940) tinha proposto um sujeito atravessado pela história. O autor de “A Rosa do Povo”, cinco anos depois, propõe que o caminho para tocar a história passa primeiro pela disciplina da palavra. A operação funciona como constatação de que a língua é a matéria-prima, sem recuar do engajamento anterior. O verso “Chega mais perto e contempla as palavras” é o avesso de qualquer noção romântica de inspiração: a poesia é trabalho artesanal de quem entra no léxico como quem entra numa casa estranha.
