Há um certo gosto em pensar sozinho
“Passeios na Ilha” é uma coletânea de prosa publicada em 1952, no mesmo período em que Drummond trabalhava em “Claro Enigma” (publicado em 1951). O livro reúne crônicas, ensaios curtos, divagações. A frase aparece na página 17, como abertura de uma das seções, conforme registro da Wikiquote.
A formulação é típica da prosa de Drummond. Sem pose, sem combatividade contra a vida social, sem celebração romântica da solidão. Apenas o registro de que existe um sabor específico — “certo gosto” — em pensar sem interlocutor. O verbo “pensar” é importante. Não é fantasiar nem sentir; é a operação cognitiva de seguir um raciocínio até o fim sem ser interrompido. A solidão que o texto reivindica é a solidão como condição de pensamento, não como retraimento afetivo.
O que torna a frase memorável é justamente a moderação do adjetivo. “Certo gosto” — não “imenso prazer”, não “necessidade vital”. Drummond evita o exagero que tornaria a frase um manifesto de misantropia. O que afirma é uma preferência discreta: às vezes, pensar sozinho é mais agradável do que pensar acompanhado. Em alguém que escreveu sobre o sentimento do mundo e a fraternidade horizontal de “Mãos Dadas”, a admissão é importante. A poesia social de Drummond não excluía a sua prática privada de prosador solitário.
