Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus
“Sentimento do Mundo” é o terceiro livro de Drummond, publicado pela Pongetti em 1940 em tiragem pequena. O livro é a virada para a chamada fase social ou engajada: do gauche solitário das estreias para um sujeito atravessado pela Segunda Guerra, pela ditadura Vargas e pelo desastre coletivo. O poema “Os Ombros Suportam o Mundo” abre com a constatação de uma exaustão da linguagem da fé. “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus” é uma frase de superfície prosaica e profundidade exata.
O verso não é ateísmo militante nem niilismo. É observação de fenômeno: há um momento na vida em que a invocação para o céu deixa de funcionar. Não porque Deus tenha sido refutado, mas porque a queixa não é mais audível para ninguém. O poema continua diagnosticando o que vem depois desse silêncio: “Tempo de inteira limpeza. / Tempo em que não se diz mais: meu amor.” A sequência é importante. Primeiro Deus para de ser interlocutor, depois o amor.
A leitura do poema costuma associá-lo ao engajamento político de Drummond, que ingressou no PCB nos anos 1940. Mas a formulação da abertura é mais antiga que o engajamento partidário; é mais propriamente uma constatação de adultez histórica, da entrada do sujeito na idade onde a queixa não tem destinatário. Os ombros do título são a postura de quem aceita carregar peso sem esperar ouvinte.
