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No meio do caminho tinha uma pedra

O poema curto, de sete versos, repete três vezes a frase “no meio do caminho tinha uma pedra” e duas vezes “tinha uma pedra no meio do caminho”. É a estreia em livro de Drummond, “Alguma Poesia”, publicada em Belo Horizonte pela Pindorama. A construção é deliberadamente prosaica, quase infantil, e foi recebida pela crítica conservadora dos anos 1930 como uma provocação ininteligível ou até mal-escrita. O uso de “tinha” no lugar de “havia” foi atacado como erro gramatical popular.

Drummond publicou em 1967 o livro “Uma Pedra no Meio do Caminho — Biografia de um Poema”, reunindo a fortuna crítica do texto, ataques e paródias. O volume é, em si, uma das defesas mais minuciosas que um poeta brasileiro fez de um único poema seu. A repetição mecânica da frase central, que parece banal, opera como reescritura modernista do verso inicial do “Inferno” de Dante (“Nel mezzo del cammin di nostra vita”), substituindo a alegoria existencial pela aspereza do obstáculo bruto.

A força do poema não está numa imagem, mas na recusa de imagem. A pedra não simboliza nada além de pedra. O sujeito do poema “nunca esquecerá esse acontecimento na vida de suas retinas tão fatigadas”. A formulação reduz a experiência poética ao registro fenomenológico do tropeço.