Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar

A formulação aparece na “Nova Reunião”, coletânea em três volumes que Drummond organizou em 1985, dois anos antes de morrer, reagrupando dezenove livros de poesia. A frase está no segundo volume e é referida pela Wikiquote como verso, embora circule no Brasil quase sempre fora do contexto poético, recortada como aforismo isolado.

A força da formulação está na palavra “ímpar”. O termo é matemático antes de ser social — número que não é divisível por dois, que não tem par. Drummond aplica o adjetivo ao ser humano: cada pessoa é um número que não fecha, que não tem equivalente. A construção contradiz tanto o universalismo abstrato (todos são iguais em humanidade) quanto o relativismo de grupo (somos iguais aos do nosso grupo). Cada um é estranho, cada um é ímpar.

A frase virou uma das mais citadas de Drummond em contextos didáticos e clínicos, sobretudo em psicologia. O risco da citação isolada é o de transformar a formulação em platitude humanista, do tipo “respeite a diferença”. O sentido drummondiano é mais agudo: a estranheza do outro funciona como condição de possibilidade do encontro, não como obstáculo a ser superado pelo respeito. Só se encontra alguém porque o outro é ímpar. A reciprocidade entre dois ímpares é o que se chama, em Drummond, de afeto.