'A vida é a arte do encontro' — não é de Drummond, é de Vinicius de Moraes
A frase circula em cartões, redes sociais e quadros decorativos atribuída a Carlos Drummond de Andrade. A atribuição é incorreta. O texto é de Vinicius de Moraes, autor da letra do “Samba da Bênção”, composto em 1962 em parceria com Baden Powell. A canção foi gravada por Vinicius no álbum “Os Afro-Sambas” (1966) e tem versão em filme no curta francês “Samba Saravah” (1966).
A formulação completa, na voz falada que Vinicius usa no samba antes da entrada do canto, é “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. O texto continua com a teoria do samba como gênero da bênção: “É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe”. Toda essa parte é diction inconfundivelmente vinicianas — escala curta de afirmação afetiva, registro de bossa, ausência da contenção sintática que caracteriza Drummond.
A confusão tem alguma plausibilidade superficial. Drummond e Vinicius eram contemporâneos, conviveram no Rio de Janeiro, partilham um certo lirismo amoroso urbano, e ambos viraram material de cartão postal sentimental no Brasil pós-1990. Mas a atribuição da frase a Drummond inverte exatamente o que distingue os dois. Vinicius escreve em registro de declaração afetiva imediata; Drummond escreve em registro de constatação contida. “A vida é a arte do encontro” é otimismo afetuoso, gesto de bênção. Não é o gesto de quem escreveu “chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus”.
