Entre as diversas formas de mendicância, a mais humilhante é a do amor implorado
O aforismo está na página 12 de “O Avesso das Coisas”. A frase classifica formas de mendicância e estabelece uma hierarquia. Pedir comida, pedir dinheiro, pedir abrigo — todos são pedidos. O pedido de amor é, segundo Drummond, o que mais humilha quem pede.
A intuição que organiza a frase é a seguinte: pedir o que se tem necessidade material aceita a assimetria entre quem pede e quem dá, mas o objeto do pedido permanece externo. Pão é pão. O pedido de afeto, ao contrário, transforma o próprio pedinte em objeto cujo valor está em jogo. Implorar amor é pedir que alguém atribua valor ao implorante. Quem implora amor admite, no ato de implorar, que o seu próprio valor não é evidente para o destinatário. A humilhação é estrutural, não circunstancial.
A formulação ressoa com toda uma tradição do moralismo francês, mas tem sotaque drummondiano específico. O autor que escreveu sobre o “amor bicho instruído” em 1934 e sobre o “amor que se aprende no limite” em 1973 chega ao aforismo tardio com o cuidado adquirido em décadas de poesia amorosa. O conselho implícito não é “não ame” nem “exija reciprocidade”. É mais sutil: reconheça que o pedido de amor, quando o amor não vem, ocupa lugar pior que outros pedidos, e ajuste a expectativa em conformidade.
