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❝ Citação

Não serei o poeta de um mundo caduco

“Mãos Dadas” é talvez a declaração de princípios mais explícita do Drummond da fase de “Sentimento do Mundo” (1940). O verso de abertura recusa o “mundo caduco” — a poesia da torre de marfim, do verso bem feito sem implicação histórica. A continuação é igualmente direta: “Também não cantarei o mundo futuro. / Estou preso à vida e olho meus companheiros.” A tríplice negação amarra o sujeito ao presente coletivo.

O poema é o avesso de “Os Ombros Suportam o Mundo”, do mesmo livro. Onde “Os Ombros” diagnostica a exaustão da invocação, “Mãos Dadas” propõe a substituição: não há mais Deus para invocar, mas há os companheiros. O tempo da fraternidade horizontal substitui o tempo da imploração vertical. O título é literal — mãos dadas, sem hierarquia.

A formulação do verso de abertura virou clichê de antologia escolar e às vezes é citada de modo redutor, como se Drummond estivesse simplesmente escolhendo o engajamento em detrimento do esteticismo. A escolha é mais fina. O sujeito do poema não diz que vai cantar o mundo presente; diz que está preso a ele e olha os outros. Há uma humildade epistêmica importante. Em 1940, com o Estado Novo no Brasil e a guerra na Europa, a poesia que Drummond aceita escrever é a do registro com olhos abertos, não a da exortação.