E agora, José?
O poema “José” abre com uma série de constatações sobre o esgotamento simultâneo de tudo: a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. Sobre esse vazio aterrissa o refrão “e agora, José?”, repetido em variações ao longo do poema. O nome próprio mais comum do português brasileiro funciona como alegoria do sujeito médio, qualquer um, todos.
O poema foi publicado em 1942, no livro intitulado “José”, pela José Olympio. O contexto é o do Estado Novo de Vargas e da Segunda Guerra. A pergunta dirigida ao José coletivo opera em registro mais concreto que o existencialismo filosófico contemporâneo (Sartre publicou “L’Être et le néant” em 1943, no ano seguinte). O poema continua: “Você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora, José?” A interpelação cobre os papéis sociais possíveis e em todos eles a resposta é a mesma: ausência de saída.
A formulação ficou tão inscrita no imaginário brasileiro que migrou para fora da literatura. “E agora, José?” é fórmula de impasse, citada em editoriais, samba e conversa cotidiana, geralmente sem que o falante se lembre de Drummond. O poema continua com as alternativas igualmente fechadas: “Se você gritasse, / se você gemesse, / se você tocasse / a valsa vienense, / se você dormisse, / se você cansasse, / se você morresse… / Mas você não morre, / você é duro, José!” A pergunta é deixada em aberto, e a dureza do José que persiste é o que sobra.
