Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

Estou preparando uma canção / em que minha mãe se reconheça

“Novos Poemas” (1948) é o livro que Drummond publica três anos depois de “A Rosa do Povo”. A inflexão é perceptível: o sujeito do livro anterior, atravessado pela guerra e pelo coletivo, recolhe-se para uma escala mais doméstica. “Canção Amiga” abre com a declaração da audiência pretendida: a mãe, e através dela “todas as mães”, e através delas “as pessoas que não são”. A escala é íntima e ao mesmo tempo cosmológica.

O poema continua: “Caminho por uma rua / que passa em muitos países. / Se não me veem, eu vejo / e saúdo velhos amigos.” A operação é a mesma do título — a canção é amiga, o sujeito que canta é amigo, e o destinatário é qualquer pessoa que possa receber a saudação. Drummond constrói uma poesia que recusa o registro panfletário sem recuar para o intimismo confessional. O endereço é direto, mas o “tu” da canção é coletivo.

O poema foi estampado na nota de cinquenta cruzados novos durante o Plano Cruzado, em 1989, dois anos após a morte de Drummond. A presença na nota — a única vez em que um poema brasileiro inteiro circulou como dinheiro — é uma confirmação institucional do estatuto do texto. A Casa da Moeda escolheu, dentro da obra inteira de Drummond, o poema mais explícito sobre o destinatário comum. A canção amiga é a que cabe na mão de quem usa a nota.