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❝ Citação

A boca beijada não guarda a marca do êxtase

A frase está na página 26 do “Avesso das Coisas”. É um aforismo sobre a fenomenologia do beijo, formulado pela negativa. A boca que foi beijada não fica diferente. Não há cicatriz, não há sinal. A experiência mais carregada de êxtase passa pelo corpo sem deixar resíduo material visível.

A formulação contraria toda uma tradição erótica que insiste no contrário — a marca do amor no corpo, o beijo que arde, o lábio mordido que sangra. Drummond observa, sobriamente, que não é assim. O êxtase passou e a boca está como antes. A consequência é que o êxtase, para ser conservado, precisa de outro suporte que não a memória corporal direta. Precisa de palavra, imagem, gesto reiterado. Não fica inscrito no tecido.

O aforismo tem ressonância importante para pensar o trabalho da poesia amorosa. Se a boca não guarda a marca, então o poema é uma das tentativas de produzir o registro que o corpo não produz. A poesia erótica, gênero que Drummond cultiva mais explicitamente nos livros tardios e em “O Amor Natural” (póstumo, 1992), é um esforço contra essa amnésia carnal. O verso vai onde a boca não vai. O aforismo, em forma comprimida, diagnostica a necessidade do procedimento poético sem prescrevê-lo.