Amor é bicho instruído
“Brejo das Almas” é o segundo livro de Drummond, publicado em 1934 pela editora Os Amigos do Livro, em Belo Horizonte. O título é também o nome de um povoado mineiro — gesto regional, em continuidade com a “Cidadezinha qualquer” do livro anterior. O poema “O Amor Bate na Porta” trabalha a antropomorfização e zoomorfização do amor, alternando registros em sequência rápida.
O verso “Amor é bicho instruído” é uma das formulações mais citadas. A combinação dos dois substantivos é deliberadamente disparatada. Bicho remete ao animal, ao instinto, ao não-doméstico. Instruído remete ao racional, ao adestrado, ao escolarizado. O amor, no poema, é os dois: animal que aprendeu, criatura ensinada que conserva a parte selvagem. A imagem antecipa toda uma tradição posterior de pensar o afeto como espécie híbrida entre natureza e cultura.
O poema continua: “Olha: o amor pulou o muro / o amor subiu na árvore / em tempo de se estrepar.” A trajetória do bicho instruído é a de quem desobedece à instrução recebida: pula o muro, sobe na árvore, se machuca. O amor que Drummond descreve em 1934 funciona como fauna específica, com hábitos próprios e propensão ao desastre, e fica a léguas das declarações sentimentais convencionais. A naturalização irônica do tema, sem moralismo nem celebração, é a marca do livro inteiro, que crítica posterior costuma classificar como a fase mais sarcástica e cética de Drummond.
