A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade
O aforismo aparece na página 11 de “O Avesso das Coisas”. A frase opera por inversão deliberada do clichê da amizade como abertura ao próximo. Drummond propõe que o amigo opera como o oposto do representante do humano genérico: é exatamente quem permite ao sujeito não ter que lidar com a humanidade indiferenciada. Tendo amigos, o sujeito está dispensado de gostar de todos.
A formulação tem precedente em moralistas franceses do século XVII e XVIII (La Rochefoucauld, Chamfort), gênero que Drummond conhecia bem. A graça do aforismo é não condenar a operação. Não diz que isolar-se da humanidade através da amizade é egoísmo; diz que é o que a amizade faz. A descrição é neutra, e o leitor é deixado para julgar se a operação é boa, má, ou simplesmente como as coisas são.
A frase iluminada pela poesia social do Drummond da década de 1940 produz uma tensão interna importante. O poeta de “Mãos Dadas” dizia “estou preso à vida e olho meus companheiros” — postura de fraternidade que abraça a humanidade através do que ela tem em comum. O aforista de “O Avesso das Coisas”, décadas depois, descreve um movimento contrário: a amizade como dispensa de tal abraço amplo. Não há contradição estrita. A poesia engaja o sujeito no coletivo histórico; o aforismo descreve a economia afetiva privada. Drummond opera nos dois registros sem precisar reconciliá-los.
