Amar o perdido / deixa confundido / este coração
“Claro Enigma” (1951) marca uma virada na poesia de Drummond. Depois do engajamento de “A Rosa do Povo”, o livro se afasta do imediato político e propõe uma poesia de meditação metafísica, mais próxima de Mallarmé e do Paul Valéry de “Le Cimetière marin”. O título é um oxímoro programático — claro e enigma — e o livro inteiro opera nesse paradoxo.
“Memória” é um dos poemas mais curtos do livro e também um dos mais lidos. A primeira estrofe formula a operação central: amar o perdido confunde o coração. O verbo “confundir” é etimologicamente preciso, do latim confundere, derramar junto. Quando se ama o que não está mais presente, presente e ausente se misturam, e o sujeito não consegue mais separar o que sente do que recorda.
A segunda estrofe completa o problema: “Nada se pode olvidar / contra o sem-sentido / do apelo do Não.” O afeto pelo perdido é também recusa do esquecimento, e essa recusa é vivida como contracorrente: o esquecimento seria a saída fácil, mas o coração não a aceita. A formulação cabe em qualquer luto — luto por morto, por amor terminado, por país que mudou. Drummond consegue, em poucas linhas rimadas, descrever a estrutura do trabalho de luto sem usar nenhum termo psicanalítico. O “Não” que o coração repete é o nome próprio do que o sujeito recusa a abandonar.
