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O que Deus fazia antes de criar o mundo? (Agostinho, Confissões XI)

O Livro XI das Confissões é comentário ao primeiro versículo do Gênesis, “In principio fecit Deus caelum et terram”. Da leitura salta uma objeção antiga, que Agostinho enfrenta de frente: “Quid faciebat Deus antequam faceret caelum et terram?” (XI.10.12). O que Deus fazia antes de criar o céu e a terra? Se esteve eternidades ocioso e num momento começou, então algo mudou nele, e o que muda está no tempo.

Agostinho registra a saída jocosa que corria entre os cristãos, de que Deus preparava o inferno para quem faz perguntas dessas, e a descarta: não quer escapar pela piada (XI.12.14).

Não havia “antes” da criação, porque o tempo é criatura. Deus criou o tempo junto com o mundo, “ipsum tempus tu feceras”, foste tu que fizeste o próprio tempo (XI.13.15); não havia um tempo já em curso dentro do qual a criação acontecesse. “Antes” é palavra temporal, e onde não há tempo ela não tem em que se apoiar.

Por isso a eternidade divina é um modo de ser sem sucessão, não uma duração infinita. Em Deus os anos não vão nem vêm: “anni tui omnes simul stant”, teus anos todos estão de uma vez (XI.13.16). Ele não precede o tempo dentro do tempo, mas pela permanência de um presente que não passa, “nec tu tempore tempora praecedis”, e o seu hoje é a eternidade, “hodiernus tuus aeternitas” (XI.13.16).

É o reverso do tempo humano. A criatura se dispersa em sucessão, na distentio animi que mede passado e futuro na alma; Deus permanece inteiro e presente a si mesmo.

A distinção entre eterno e perpétuo reaparece sem teologia em Spinoza. Ver as coisas sub specie aeternitatis é vê-las fora do tempo, numa ordem necessária; a mente que apreende essa ordem experimenta a si mesma como eterna, por participar do que não é temporal e não por durar sem fim. Muda o fundamento, já que a substância de Spinoza não é o Deus pessoal de Agostinho, mas a recusa de reduzir a eternidade a tempo infinito atravessa os dois.