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❝ Citação

Deixem-me enumerar alguns exemplos que irão ser discutidos muito ociosamente mais adiante: Pitágoras permitiu-se ser massacrado a atravessar um campo de feijões; Heraclito sufocou em excrementos de vaca; Platão morreu supostamente de uma infestação de piolhos; Empédocles atirou-se para o monte Etna na esperança de vir a tornar-se um deus, mas uma das suas sandálias de bronze foi cuspida pelas chamas confirmando a sua mortalidade; Diógenes morreu porque susteve a respiração; O mesmo fez o grande radical Zenão de Cítio; Zenão de Eleia morreu heroicamente mordendo a orelha de um tirano até ser mortalmente esfaqueado; Lucrécio suicidou-se por alegadamente ter enlouquecido após beber uma poção de amor; Hipátia foi morta por uma multidão de cristãos enraivecidos e a sua pele foi arrancada com conchas de ostras; Boécio foi cruelmente torturado antes de ser espancado até à morte por ordem do rei ostrogodo Teodorico; João Duns Escoto, o grande filósofo irlandês, foi supostamente esfaqueado até à morte pelos seus alunos ingleses; Avicena morreu de uma overdose de ópio depois de ter praticado atividades sexuais demasiado vigorosamente; São Tomás de Aquino morreu a quarenta quilómetros do seu local de nascimento depois de bater contra o ramo de uma árvore; Pico della Mirandola foi envenenado pelo seu secretário; Sigério de Brabante foi esfaqueado pelo seu; Guilherme de Ockham morreu de peste negra; Thomas More foi decapitado e a sua cabeça cravada numa estaca na Ponte de Londres; Giordano Bruno foi amordaçado e queimado vivo pela Inquisição; Galileu escapou por pouco ao mesmo destino, mas escapou com prisão perpétua; Bacon morreu depois de encher uma galinha com neve nas ruas de Londres de modo a verificar os efeitos da refrigeração; Descartes morreu de pneumonia em consequência de lições madrugadoras durante o inverno de Estocolmo à prodigiosa e transformista rainha Cristina da Suécia; Espinosa morreu no seu quarto alugado em Haia quando toda a gente estava na igreja; Leibniz, desacreditado como um ateu e esquecido como figura pública, morreu sozinho e foi enterrado à noite com apenas um amigo a assistir; O belo e brilhante John Toland morreu numa pobreza tão extrema, em Londres, que nenhuma placa foi colocada no local do seu túmulo; Berkeley, um crítico fervoroso de Toland, e de outros denominados «livres-pensadores», morreu num domingo à noite numa visita a Oxford enquanto a sua mulher lhe lia um sermão; Montesquieu morreu nos braços da sua amada, deixando inacabado um ensaio sobre o gosto; O ateu e materialista La Mettrie morreu de indigestão causada pela ingestão de uma quantidade enorme de trufas; Rousseau morreu de uma hemorragia cerebral causada, talvez, por uma colisão violenta com um dogue alemão nas ruas de Paris dois anos antes; Diderot sufocou até à morte com um damasco, porventura para mostrar que o prazer podia ser sentido até ao último suspiro; Condorcet foi assassinado pelos jacobinos durante os anos sangrentos da Revolução Francesa; Hume morreu tranquilamente na sua cama depois de recusar um pedido de esclarecimentos de Boswell acerca da atitude do ateu perante a morte; A última palavra de Kant foi Sufficit, «basta»; Hegel morreu numa epidemia de cólera e as suas últimas palavras foram: «só um homem alguma vez me compreendeu… E não me compreendeu» (presumivelmente, referia-se a si mesmo); Bentham fez-se embalsamar e encontra-se sentado à vista do público numa caixa de vidro no University College de Londres de modo a maximizar a utilidade da sua pessoa; Max Stirner foi picado no pescoço por um inseto e morreu da febre resultante; A lápide de Kierkegaard permanece em oposição à do pai; Nietzsche fez uma longa descida idiótica e cheia de baba até ao vazio depois de beijar um cavalo em Turim; Moritz Schlick foi assassinado por um aluno louco que depois se filiou no Partido Nazi; Wittgenstein morreu no dia seguinte ao seu aniversário e a sua amiga, a senhora Bevan, deu-lhe um cobertor elétrico dizendo «que conte muitos»; ao que Wittgenstein respondeu, fitando-a, «não haverá mais nenhum».Simone Weil morreu de fome por solidariedade com a França ocupada na Segunda Guerra Mundial; Edith Stein morreu em Auschwitz; Giovanni Gentile foi executado por militantes italianos antifascistas; Sartre disse: «Morte? Não penso nisso. Não tem qualquer lugar na minha vida»; 50 000 pessoas assistiram ao seu funeral; Merleau-Ponty foi alegadamente encontrado morto no seu escritório com o rosto caído num livro de Descartes; Roland Barthes foi atingido por uma carrinha de uma lavandaria após um encontro com o futuro ministro da Cultura; Freddie Ayer teve uma experiência de quase-morte na qual, supostamente, encontrou os senhores do universo após engasgar-se com um pedaço de salmão; Gilles Deleuze atirou-se da janela do seu apartamento de Paris de forma a escapar aos sofrimentos do enfisema; Derrida morreu de cancro do pâncreas com a mesma idade do pai, que morreu da mesma doença; O meu professor, Dominique Janicaud, morreu sozinho numa praia, em agosto de 2002, próximo do sopé de le chemin Nietzsche [o caminho de Nietzsche] nos arredores de Nice, em França, depois de sofrer um ataque cardíaco enquanto nadava.

Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, versão portuguesa de The Book of Dead Philosophers, obra publicada em 2008.