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As etimologias do Crátilo de Platão

No miolo do Crátilo, Sócrates passa páginas e páginas destrinchando palavras. O objetivo é sustentar a tese naturalista: se o nome guarda na própria forma a natureza da coisa, ele não é etiqueta arbitrária. E há um padrão que salta aos olhos. A esmagadora maioria das palavras é derivada de movimento, corrida, fluxo — sinal, diz Sócrates, de que quem cunhou o grego acreditava que tudo escorre, como ensinava Heráclito.

Aviso necessário: são as derivações que Sócrates propõe. Pela linguística histórica, quase nenhuma se sustenta. Muitas são forçadas, várias soam como brincadeira, e há séculos se discute quanto disso Platão leva a sério. Servem ao argumento, não à filologia. As listas abaixo cobrem os verbetes que sustentam a discussão, não cada ocorrência menor.

Heróis e nomes próprios (~391–397)
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NomeSócrates deriva de…
Astíanaxánax, rei: o que guarda a cidade do pai
Heitoréchein, ter/reter: quase sinônimo de Astíanax (transmissão pai-filho)
Agamêmnonagastós + epimoné: admirável pela perseverança no cerco
Orestesóros, montanha: a natureza selvagem
Atreuateirés (obstinado) / átrestos (destemido) / ateros (funesto)
Pélopspélas + óps: o que enxerga só o que está perto
Tântaloa pedra suspensa no Hades / talántatos, o mais sofredor

Deuses (~397–408)
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DeusSócrates deriva de…
theoi (deuses)theîn, correr: os primeiros deuses (sol, lua, astros) corriam pelo céu
Héstiaousía/essía, essência: o princípio primeiro
Reiarheûma, corrente: o fluir
Cronoskóros (no sentido de puro): o intelecto sem mistura
Zeus (Día/Zêna)di’ hòn zên: aquele por quem todas as coisas vivem
Posêidonposì desmós, grilhão dos pés (o mar barra o andar); ou “o que sabe muito”
Plutãoploûtos, riqueza: o que vem de baixo da terra
Hadesaidés, invisível; ou eidénai, saber: o que conhece todo o bem
Deméterdidoûsa métēr: a mãe que dá o alimento
Heraeraté, amável; ou anagrama de aér, ar
Perséfonetocar o que está em movimento: a sabedoria que acompanha o fluxo
Apoloapoloúōn (purificador), haploûs (sincero), aeì bállōn (sempre certeiro)
Musasmôsthai, ansiar/buscar
Letoethelḗmōn, benévola; ou lḗthē, suavidade do esquecer
Ártemisartemés, íntegra; ou conhecedora da virtude
Dionisodidoùs ton oînon, o que dá o vinho (em tom de pilhéria)
Afroditeaphrós, espuma do mar
Atena / Palaspállein, brandir as armas; e theonóa, mente divina
Hefestopháeos hístōr, senhor da luz
Aresárren, viril; ou árratos, inflexível
Hermeshermeneús (intérprete) + eírein (falar): o deus da fala e da troca
pân, tudo: filho de Hermes, o discurso que tudo indica, liso em cima e áspero embaixo (o verdadeiro e o falso)

Céu, elementos e tempo (~408–410)
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PalavraSócrates deriva de…
Hélio (sol)halízein (congregar), heileîn (rolar) ou aioleîn (matizar)
Selene (lua)sélas (brilho) + sempre velho-e-novo: luz emprestada do sol
ástra (astros)astrapé, relâmpago
pŷr (fogo), hýdōr (água)palavras estrangeiras (frígias), sem raiz grega
aér (ar)aírein (levantar do chão) ou aeì rheî (sempre flui)
aithér (éter)aeì theî, sempre corre ao redor do ar
(terra)gennéteira, geradora
hôrai (estações)horízein, o que delimita o ano
eniautós (ano)en heautô, o tempo que se examina/revolve em si

Alma, homem e o divino (~398–400)
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PalavraSócrates deriva de…
ánthrōpos (homem)anathrôn hà ópōpe: o que reexamina o que viu (só ele reflete sobre o que vê)
psyché (alma)anapsŷchon, o que dá fôlego ao corpo; ou o que sustenta a natureza
sôma (corpo)sêma: túmulo, ou sinal da alma; e o órfico sốzetai, cárcere onde a alma se guarda
daímōndaḗmōn, o sábio: os homens bons viram daimones ao morrer
herói (hḗrōs)érōs (amor) ou eírein (falar): nascidos do amor, hábeis no discurso

Virtudes, vícios e paixões (~411–420)
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Aqui o padrão do fluxo fica mais ostensivo: quase tudo é corrente, sopro, arremesso.

PalavraSócrates deriva de…
phrónēsis (prudência)phorâs nóēsis: pensamento do movimento
gnṓmē (juízo)gonês sképsis: exame da geração
nóēsis (intelecção)néou hésis: anseio do que vem a ser
sōphrosýnē (temperança)sōtēría phronḗseōs: salvação da prudência
epistḗmē (conhecimento)hépesthai: seguir as coisas em movimento
sophía (sabedoria)o tocar do movimento (phorá)
agathón (o bem)agastòn en tê tachytêti: o admirável no que é veloz
dikaiosýnē (justiça)compreensão do justo (dikaíou sýnesis)
díkaion (o justo)o que penetra e atravessa tudo
andreía (coragem)áno rhoé: o fluxo que corre para cima (contracorrente)
areté (virtude)aeì rhéousa: a que sempre flui (bom fluxo)
kakía (vício)kakôs ión: o que vai mal, o mau movimento
deilía (covardia)forte grilhão da alma: o que prende
aporía (perplexidade)impedimento de ir (a- + poreúesthai)
hēdoné (prazer)ação voltada à fruição (ónēsis)
lýpē (dor)dissolução do corpo
odýnē (sofrimento)o “vestir” da dor
chará (alegria)o fluir da alma
térpsis (deleite)o sopro (hérpsis) que percorre a alma
euphrosýnē (contentamento)mover-se bem junto com as coisas
epithymía (apetite)poder que vai ao ânimo (epì thymón)
thymós (ânimo)o ferver/borbulhar da alma
hímeros (desejo)a corrente que arrasta a alma
póthos (saudade)desejo do que está alhures (állothí pou)
érōs (amor)o que flui de fora para dentro pelos olhos (esreî)
dóxa (opinião)perseguição do saber (díōxis) ou o arco que mira (tóxon)
boúlēsis (querer)bolé, o lançamento, a mira
hekoúsion (voluntário)eîkon, o que cede

Ser, verdade e nome (~421)
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PalavraSócrates deriva de…
alḗtheia (verdade)álē theía: errância/movimento divino
pseûdos (falsidade)o atado, o repouso forçado (ligado a dormir)
ón / ousía (ente, essência)ión: o que vai — o ser é movimento
ónoma (nome)òn hoû másma: o ente de que se anda à procura
ión, rhéon, doûntermos últimos, talvez estrangeiros, irredutíveis

Os nomes primários: as letras que imitam (~426–427)
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Quando se chega a nomes que não se decompõem em outros, a correção teria de ser imitação direta. As letras imitam as coisas pelo som:

LetraO que imita
ρ (rô)movimento, fluxo, tremor, choque, dureza
ι (iota)o sutil, o que penetra tudo
λ (lambda)o liso, o que desliza e escorrega
γ (gama)o viscoso, o pegajoso (a língua presa)
ν (ni)o que soa por dentro, a interioridade
α (alfa)grandeza, tamanho
η (eta)extensão, comprimento
ο (ômicron)redondez
φ, ψ, σ, ζo que sacode, ferve, treme (sopradas)
δ, τ (delta, tau)fixação, parada, repouso

Por que essas etimologias são fantasiosas
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O catálogo impressiona pela quantidade, mas a linguística histórica desmancha quase tudo. Não por capricho: as derivações de Sócrates seguem o que hoje se chama etimologia popular — parte-se de um som parecido e da tese que se quer provar, e volta-se montando a ponte entre os dois. Três tipos de erro se repetem.

Primeiro, impor fluxo a palavras de herança estável. A tese exige que o grego tenha sido cunhado por heraclitianos, então Sócrates lê movimento onde não há. Theós não vem de theîn, “correr”: reconstrói-se a partir da raiz indo-europeia *dʰéh₁s, ligada ao sagrado e ao ato de pôr, sem nenhuma ideia de corrida (Beekes 2010). Areté não é “a que sempre flui” (aeì rhéousa), mas pende da raiz *h₂erh₁-, “ajustar, encaixar”, a mesma de ararískō, “juntar” (Beekes 2010).

Segundo, chamar de estrangeiro justamente o que é mais indo-europeu. Quando uma palavra não cede ao método, Sócrates a declara emprestada: pŷr (fogo) e hýdōr (água) seriam frígias. São o oposto disso. Estão entre as heranças indo-europeias mais seguras que se conhece. Pŷr vem de *péh₂wr̥, cognata do inglês fire e do alemão Feuer; hýdōr, de *wódr̥, cognata de water e Wasser (Beekes 2010). O mesmo erro atinge astēr (astro), que ele tira de astrapḗ, relâmpago, e que na verdade desce de *h₂stḗr, a raiz de star, do latim stella, do sânscrito tārā (Beekes 2010). E atinge ónoma (nome), que vira “o ente de que se anda à procura” e nada mais é que a continuação do indo-europeu *h₁nómn̥, cognato de nomen, name, do sânscrito nā́man (Beekes 2010).

Terceiro, decompor o que é opaco. Há palavras gregas sem etimologia transparente, muitas delas pré-gregas, herdadas de uma língua anterior à chegada dos falantes de grego à península. Ánthrōpos (homem) é o caso clássico: carece de decomposição indo-europeia convincente, e Beekes a classifica como provavelmente pré-grega (Beekes 2010). “Aquele que reexamina o que viu” (anathrôn hà ópōpe) é construção engenhosa sobre uma palavra que não se deixa abrir. Sôma (corpo) é parecido: a origem é disputada e incerta (Beekes 2010), e o elegante sêma, “túmulo”, é etimologia órfico-pitagórica, não a fonte real.

Cabe uma ressalva honesta. De quando em quando Sócrates acerta por acaso. Psyché (alma) ele liga ao fôlego, e a palavra de fato vem de psýchō, “soprar, respirar”, com sentido original de “sopro” (Beekes 2010).

Zeus é o caso mais nítido. Sócrates o deriva de di’ hòn zên, “aquele por quem se vive”, mas a palavra descende de *dyḗws, o deus-céu indo-europeu, cognato do latim Iuppiter e do sânscrito Dyaus (Beekes 2010).

O que esse catálogo prova, e o que não prova
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Tomado em bloco, o catálogo serve a duas conclusões de Sócrates. A primeira: os nomes não são arbitrários, porque guardam a natureza das coisas na própria forma. A segunda: quem os cunhou via o mundo em fluxo perpétuo, e embutiu isso na língua sem perceber.

Mas o próprio material trai a tese. Nem tudo deriva de movimento. Deilía é grilhão, aporía é não poder ir, as letras delta e tau exprimem repouso, e o próprio epistḗmē pode ser lido como “fazer a alma parar diante das coisas”. Se uns nomes dizem fluxo e outros dizem repouso, os cunhadores não podiam estar todos certos. Sócrates vai usar essa contradição adiante para concluir que não se aprende a realidade pelos nomes, mas estudando as coisas em si — o ponto epistêmico desenvolvido em A correção dos nomes: o problema do Crátilo de Platão.