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A correção dos nomes: o problema do Crátilo de Platão

O diálogo começa com uma provocação. Crátilo diz a Hermógenes que “Hermógenes” não é o verdadeiro nome dele. Para Crátilo, há um nome certo para cada coisa, fixado por natureza, e quem não acerta esse nome apenas emite um som. Hermógenes acha isso absurdo. Para ele, nome é combinação: o que cada um resolve chamar uma coisa é o nome correto dela, e pode-se trocar à vontade, como se troca o nome de um escravo. Os dois não saem do lugar e chamam Sócrates para arbitrar.

A pergunta embaixo da briga é grande. Os nomes espelham a realidade, ou são etiquetas que colamos por acordo? E atrás dela está uma pergunta maior. A língua dá acesso ao que as coisas são, ou só organiza como falamos delas?

Naturalismo e convencionalismo
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A posição de Hermógenes é o convencionalismo: a correção dos nomes vem inteira do costume e do acordo (synthēkē). Não há nome verdadeiro nem falso, só nome em uso. A de Crátilo é o naturalismo: existe um padrão natural (physei) que faz um nome certo ou errado, independente do que se combine. Os dois extremos se enfrentam, e Sócrates vai recusar ambos.

O nome como ferramenta
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Sócrates dá o primeiro ponto a Crátilo, contra Hermógenes. Se nomear fosse arbitrário, não existiria nomear bem ou mal, mas existe. Logo o nome tem uma função, e o que tem função é uma ferramenta. Na tradução de Fowler:

“A name is, then, an instrument of teaching and of separating reality.” (388b)

A imagem é a do tear. Em Jowett:

“as a shuttle separates the warp from the woof, so a name distinguishes the natures of things.” (388b)

Daí vem uma consequência que contraria a intuição comum. Quem fabrica a ferramenta não manda nela: o carpinteiro faz a lançadeira, mas é o tecelão que sabe se ela presta. Com os nomes vale o mesmo. Há um “legislador dos nomes” (nomothétēs) que os cunha, mas quem julga se o nome serve é quem o usa para pensar e perguntar, o dialético.

“the dialectician directs the legislator how he is to impose names.” (390c-d, Jowett)

As etimologias
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A parte mais longa e mais estranha do diálogo é uma sequência de etimologias. Sócrates destrincha dezenas de palavras gregas e quase todas revelam, segundo ele, uma mesma visão de mundo: a de que tudo se move. “Deuses”, theoi, viria de correr:

“Gods are so called, apo tou thein, from the verb ’to run;’ because the sun, moon, and stars run about the heaven.” (397d, Jowett)

“Corpo”, sôma, recebe três leituras na mesma passagem (400c): o corpo como túmulo da alma (sêma); o corpo como sinal pelo qual a alma se exprime (sêma de novo, agora “signo”); e a leitura órfica, o corpo como cárcere onde a alma se guarda.

“the body is the place of ward in which the soul suffers the penalty of sin.” (400c, Jowett)

Quando se chega a nomes que não se decompõem em outros, a correção teria de ser imitação direta: as letras imitariam as coisas, o “r” sugerindo movimento, e assim por diante, no que se chama teoria mimética dos nomes primários. Vale uma ressalva de leitura: boa parte dessas etimologias é forçada, e até hoje se discute quanto disso Platão leva a sério e quanto é ironia. O catálogo completo está em As etimologias do Crátilo de Platão.

A virada contra Crátilo
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Tendo construído o naturalismo, Sócrates passa a derrubá-lo. Se um nome fosse a imitação perfeita da coisa, deixaria de ser nome e viraria uma cópia, uma segunda coisa. Imitação perfeita é impossível, e por isso costume e convenção (ἔθος τε καὶ συνθήκη, 435a) voltam a ter papel. Um nome com letras “erradas” funciona mesmo assim, desde que a comunidade o use para aquilo. A convenção que Sócrates tinha posto de lado volta a contar.

O que se pode saber pelos nomes
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O fecho é o que mais interessa para o problema da linguagem. Mesmo que os nomes carreguem uma teoria do mundo, eles não são via segura para o conhecimento. Quem os inventou podia estar enganado, e aprender pela palavra é herdar o erro de quem a cunhou. Por isso Sócrates pergunta:

“Who would learn of words when he might learn of things?” (439b, Jowett)

Para saber o que algo é, estuda-se a coisa, não o nome dela. E há um motivo a mais para desconfiar: os nomes gregos, sugere Sócrates, foram dados por gente que acreditava que tudo flui. Se isso fosse verdade, nada ficaria parado o bastante para ser conhecido.

“There can be no knowledge if all things are in a state of transition.” (440, Jowett)

Sócrates inclina-se para o oposto. O conhecimento supõe algo estável, e é aí que ele aponta para as Formas. O diálogo, porém, não resolve a questão; termina em aberto, como vários do período.

Por que o Crátilo importa
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O Crátilo é o primeiro tratamento ocidental da correção dos nomes, e boa parte da filosofia da linguagem responde, de um modo ou de outro, à alternativa que ele montou. A leitura do fecho é disputada: alguns veem Platão render-se ao convencionalismo, outros sustentar um naturalismo refinado em que a convenção apenas limita. David Sedley (Plato’s Cratylus, 2003) defende que Sócrates nunca concede ao convencionalismo, e só refuta a crença de Crátilo de que o nome espelha o objeto sem falha.

A mesma intuição reaparece, em outro registro, do outro lado da Eurásia. Onde o Crátilo pergunta se os nomes são corretos, Confúcio manda que sejam corrigidos: a retificação dos nomes (正名, Analectos 13.3) é tarefa de governo, porque nome errado desordena a fala e, no fim da cadeia, deixa o povo sem saber onde pôr as mãos e os pés.