Mestre Claudio Teixeira: Servir - Liderar - Legar
No terceiro encontro do Programa de Mestrado, Mestre Claudio Teixeira, Moy Kat Jo 梅吉祖, abriu a sua fala com uma confissão.
Por anos, a frase que ele repetia para si mesmo era: um dia quero praticar Kung Fu com a mesma qualidade que eu dirijo. Achava que dirigia muito bem.
Com o tempo, a lente inverteu. Hoje, com o Kung Fu como referência, o que ele vê é a quantidade de ações inadequadas no volante. Conta que levou o Si Fu ao aeroporto e, distraído pela conversa, quase esbarrou num táxi parado no escuro. O Si Fu teve que avisar: “Claudio, acelera e corta esse cara.”
A partir dessa inversão, monta uma proposta em três movimentos.
Se tudo é reação, então só existem ações#
A gente nasce, alguém dá um tapa, a gente chora. Reação. Depois disso, a vida inteira é reação ao ambiente, até que a consciência alcança densidade suficiente para começar a escolher. Mas, observa ele, mesmo essas escolhas continuam sendo reações. A gente reage ao que o ambiente oferece, mesmo quando há tempo de deliberar.
Si Fu comentou que isso lembrava uma fala do Si Hing Leo.
Se tudo é reação, a ideia de uma ação pura, descolada do estímulo, deixa de existir como categoria. A oposição se desfaz. Fica apenas ação, mas ação entendida como resposta a um campo. Kung Fu não é buscar ação pura. É refinar a reação até ela virar escolha, até ela carregar uma camada a mais de percepção.
Escapar da ideia de dirigir#
O segundo movimento nasce da metáfora do carro, mas vai além dela. “Dirigir” em português carrega dois sentidos sobrepostos. Operar um veículo. Conduzir, governar, impor uma direção.
Quando Claudio diz que dirigia muito bem, não é só sobre o volante. É sobre a pretensão de estar no controle. A fantasia do sujeito que guia o próprio carro, a própria vida, os próprios acertos. O Kung Fu, vindo como lente, desmonta essa fantasia. Mostra os lapsos. Mostra que havia outro carro no escuro o tempo todo.
Escapar da ideia de dirigir é escapar da pretensão de direção. Não é passar a dirigir mal. É abandonar o ideal de dirigir como finalidade. Voltar a perceber. Deixar que a percepção calibre a resposta, em vez de impor uma rota.
Servir, liderar, legar#
O terceiro movimento é a definição que Claudio arrisca, quando Mestre Márcio Lopes pede para ele definir Kung Fu: o desenvolvimento da soberania, uma metodologia para reger a si mesmo, entendendo como servir, liderar e legar com mais competência.
Três verbos. Uma tríade que Claudio propõe como o desenho do próprio caminho.
O Comentário do Si Fu#
Si Fu gostou da tríade. Mas fez duas observações.
A primeira, mais geral: definir algo é ter a pretensão de dar fim, fechar o campo. Kung Fu talvez não se deixe fechar. Soberania é uma boa entrada, ter a regência da própria vida é uma coisa muito boa, mas não cobre tudo. Porque o Kung Fu pressupõe a relação com o outro, pressupõe processo, resultado, o tirar do envolvimento que o Guilherme mencionou. Uma boa definição teria que colocar tudo isso dentro.
A segunda observação é mais fina. A tríade usa o conectivo “e”. Servir, liderar E legar. Isso pode sugerir cronologia, como se primeiro se servisse, depois liderasse, depois legasse. Si Fu pede para retirar a cronologia.
Porque quem está legando, lá na frente, segue servindo. E quem lidera, lidera em função de alguém: lidera para servir aos liderados. E quem lega, lega para servir aos legatários.
Isso inverte o vetor da soberania. Ela deixa de ser regência sobre si mesmo e vira uma regência que só faz sentido na relação com o outro.
