La haine peut être vile ; s'en défaire pourtant est plus dangereux qu'en abuser
De Syllogismes de l’amertume (1952), p. 108 da edição Gallimard. O ódio pode ser vil; livrar-se dele, contudo, é mais perigoso que abusar dele. O aforismo pertence à série em que Cioran trata as paixões negativas como energias vitais: a renúncia ao ódio pode esvaziar a personalidade mais do que o cultivo dele.
A formulação está em tensão direta com a moral cristã da renúncia e com a psicologia terapêutica do “deixar ir”. Para Cioran, certas paixões funcionam como sustentação tônica do organismo psíquico, e desfazer-se delas é correr o risco da abulia — esse estado, frequente em sua obra, em que o sujeito perde até a capacidade de querer. A aforística dos Syllogismes é especialmente densa nesse registro: cada paixão tem sua função, e a higiene moral pode ser uma forma sutil de morte.
