Sei que estás em festa, pá, fico contente
“Tanto Mar” foi composta em 1975, em saudação à Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974), que pôs fim ao regime do Estado Novo em Portugal. A primeira versão foi gravada e lançada em Portugal em agosto de 1975, em compacto da Phonogram. No Brasil, a canção foi vetada pela censura. A segunda versão, gravada em 1978 no LP Chico Buarque (Philips), abre com “Foi bonita a festa, pá, fiquei contente / e inda guardo, renitente, um velho cravo para mim” — registro do refluxo da revolução depois de novembro de 1975.
O “pá” português é forma de tratamento informal entre pares — “cara”, “irmão”. Chico fala com um amigo português imaginário. A formulação simétrica entre as duas versões funciona como diário em duas datas:
1975: Sei que [estás] em festa, pá / Fico contente 1978: Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente
A primeira no presente do levante, a segunda no pretérito da derrota parcial.
O cravo é a flor que os soldados puseram nos canos dos fuzis no 25 de Abril, símbolo da revolução. “Guarda um cravo para mim” pede que se reserve um pedaço da festa para o brasileiro ainda sob ditadura — Chico tinha 31 anos e o regime militar brasileiro só terminaria dez anos depois.
