Quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem
“Olhos nos Olhos” foi composta em 1976 e gravada no mesmo ano em duas versões: a de Maria Bethânia no LP “Pássaro Proibido” e a do próprio Chico em “Meus Caros Amigos”. Em entrevista, Chico explicou que a canção é “sobre a mulher que é abandonada pelo marido — ou pelo amante — e que sai por cima”. A gravação de Bethânia marcou virada de carreira: foi a primeira vez que ela entrou nas paradas das rádios AM.
A letra constrói o reencontro da narradora com o ex-parceiro. Ela começa relatando obediência: “como era de costume, obedeci”. Em seguida, descreve a passagem pela tristeza, pela demência, e culmina na inversão: “agora você vem me ver, tanto fervor / como você se atreve a me trazer flor”. A “abandonada que sai por cima” não devolve o gesto — ela recusa o reencontro de igual para igual e impõe seu olhar. “Olhos nos olhos” é fórmula de paridade que a canção devolve com violência contida.
A escolha do ponto de vista feminino se torna constante em Chico ao longo dos anos 1970, integrando peça (Joana de “Gota d’Água”), opereta (Ópera do Malandro) e gravações por Bethânia, Elis, Nara, Marília Medalha. A crítica feminista contemporânea retomou o tema do travestimento autoral nesse repertório.
