Meus olhos talvez se embaçassem ao vislumbrarem a imagem em preto e branco, na outra margem do rio, do meu irmão Sergio
“O Irmão Alemão” é o quinto romance de Chico, lançado em novembro de 2014 pela Companhia das Letras. O livro parte de fato biográfico — Sérgio Buarque de Holanda, pai de Chico, morou em Berlim entre 1929 e 1930 como correspondente, e nesse período teve um filho com a alemã Anne Ernst. O filho, Sergio Günther, foi criado pela mãe e pelo padrasto, viveu em Berlim Oriental, tornou-se locutor de televisão na RDA, e morreu em 1981 sem que a família brasileira chegasse a conhecê-lo. Chico ficou sabendo da existência do meio-irmão por uma carta de Anne Ernst encontrada na biblioteca paterna após a morte de Sérgio (1982).
O narrador-personagem, Francisco Buarque de Hollander, persegue ao longo do romance pistas do irmão desconhecido. A formulação do vislumbre — “outra margem do rio”, “imagem em preto e branco” — fixa o irmão como hipótese visual, no limite entre arquivo e ficção. As fontes biográficas reais (carta, fotografias da Stasi, documentos de cartório alemão) entram no romance reproduzidas em fac-símile.
A escolha de narrador parcialmente travestido (Francisco Hollander, não Buarque de Hollanda) preserva o estatuto ficcional. O romance discute a impossibilidade de recuperar o tempo do outro pela documentação. A relação de Chico com o pai historiador, autor de “Raízes do Brasil” (1936), é tema recorrente também em entrevistas dos anos 2010.
