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Certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida

“Leite Derramado” é o quarto romance de Chico, lançado em março de 2009 pela Companhia das Letras. Ganhou o Prêmio Jabuti de romance em 2010 e o Prêmio Casa de las Américas em 2011. O narrador, Eulálio Montenegro d’Assumpção, é um homem centenário internado num hospital público do Rio. Em monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem queira ouvir, refaz a saga da própria família — do barão do Império avô, passando pelo senador da Primeira República, até o tataraneto traficante carioca.

A frase aparece em meio à reflexão sobre o que o narrador chama de loop da memória: cenas que retornam com variações, frequentemente com a esposa Matilde — que sumiu da vida dele em circunstâncias que o romance jamais esclarece definitivamente. A formulação “não param de acontecer em nós” é precisa: a memória não é repetição de fato passado, mas presença ativa, presente. As histórias acontecem em tempo verbal contínuo.

O romance opera por sobreposição de tempos. Eulálio mistura nomes (chama a filha de Matilde, a enfermeira de filha), repete e contradiz versões dos mesmos eventos. “Leite Derramado” é uma das obras em que a narrativa em decadência aristocrática se cruza com a história brasileira — saga familiar que duplica a saga do país, sem que o romance recorra ao alegorismo direto.