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Já lhe dei meu corpo, minha alegria

“Gota d’Água” é a peça em versos de Chico Buarque e Paulo Pontes, escrita em 1975 e estreada em dezembro do mesmo ano no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, com Bibi Ferreira no papel de Joana. A trama transpõe a Medéia de Eurípides para um conjunto habitacional carioca: Joana é mulher madura que sustenta o jovem Jasão, sambista que rouba uma canção dela (“Gota d’Água”) e abandona Joana para casar com a filha do dono do conjunto, Creonte. O desfecho repete a tragédia grega — Joana mata os próprios filhos. Chico e Pontes ganharam o Prêmio Molière de melhor autor em 1975.

A canção homônima é cantada por Joana à Jasão. “Já lhe dei meu corpo, minha alegria, já estanquei meu sangue quando fervia” reconstrói um histórico de doações. A formulação é contábil — corpo, alegria, sangue, paciência — como se a personagem listasse o que entregou para depois pedir contrapartida. O fechamento “deixa em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa / e qualquer desatenção, faça não / pode ser a gota d’água” arma a metáfora-título: o coração é vaso quase cheio.

A peça liga Eurípides ao samba de subúrbio sem ironia paródica. A leitura política dialoga com a noção de “vida vivida” como o que ainda escapa à racionalização autoritária do milagre econômico.