Amou daquela vez como se fosse a última
“Construção” é a faixa-título do oitavo LP de Chico, lançado em novembro de 1971 pela Phonogram/Philips. A canção narra o último dia de um operário da construção civil, desde o beijo na mulher pela manhã até a queda do andaime. Cada verso da letra é um dodecassílabo terminado em palavra proparoxítona. As mesmas linhas se repetem três vezes ao longo da canção, com proparoxítonas trocadas: “tijolo com tijolo num desenho mágico” vira “lógico” e depois “público”; “ergueu no patamar quatro paredes sólidas” vira “mágicas” e depois “flácidas”. A estrutura formaliza, no plano sonoro, a substituição mecânica que é o tema da canção.
O fechamento — “morreu na contramão atrapalhando o tráfego / o sábado / o público” — desloca a morte do trabalhador para um inconveniente de circulação. A inversão é o próprio comentário moral, sem que o eu-lírico precise emitir juízo. A formulação evita a denúncia explícita e por isso passou pela censura, embora a leitura política fosse evidente.
A Rolling Stone Brasil elegeu “Construção” como a maior canção brasileira de todos os tempos em sua lista de 2009. O arranjo orquestral é de Rogério Duprat.
