Pai, afasta de mim esse cálice
“Cálice” foi composta em 1973 para o festival Phono 73, organizado pela Phonogram. Submetida à censura federal em 10 de maio de 1973, foi rejeitada — o manuscrito sobrevivente traz quatro carimbos de veto, e o censor anotou ao lado “cale-se”, evidenciando que havia entendido o trocadilho. No dia seguinte, 11 de maio, Chico e Gil tentaram interpretá-la ao vivo no festival. A polícia federal cortou os microfones um a um até forçar o abandono da apresentação. Chico ainda gritou um palavrão fora do palco. A canção só foi gravada em 1978, com Milton Nascimento ao lado de Chico, no LP Chico Buarque (Philips).
O refrão cita literalmente Marcos 14:36, oração de Cristo no Getsêmani na noite anterior à crucificação: “Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice”. A sobreposição evangélica abre uma camada teológica que justifica o pedido como ato religioso e ao mesmo tempo aciona o trocadilho fonético “cálice/cale-se”. A canção pede, simultaneamente, fim do sofrimento, fim do silêncio imposto, e desautoriza qualquer leitura única.
“Cálice” entrou no cânone das canções de resistência. A versão de 1978, com naipes de sopros e a entrada vocal de Milton, é a gravação consagrada.
