Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta
Os versos abrem a primeira estrofe da canção, depois do refrão litúrgico inicial. O eu-lírico desce do plano da súplica religiosa para o corpo: a bebida do cálice tem gosto. É amarga. O que cabe dentro do cálice é vinho tinto de sangue, mas é também dor cotidiana e trabalho mal pago — a “labuta”.
A escolha lexical é deliberada. “Labuta” é palavra do português popular para trabalho duro e desvalorizado; aparece em escritores como Lima Barreto e em sambas de meados do século XX. A canção mistura registro bíblico (cálice, vinho, sangue) e registro popular (labuta, calar a boca), e essa mistura é parte do que escapa à censura — o tribunal lê uma camada e perde a outra.
A canção segue descendo a escala: “mesmo calada a boca, resta o peito / silêncio na cidade não se escuta”. O silêncio se torna sonoro pela negação. Toda a composição opera sobre essa lógica da denúncia indireta. O cálice é simultaneamente o copo da Paixão, a censura, a vida do trabalhador comum e o silêncio organizado pelo Estado.
