Cego, identificaria cada fuzil e diria de que cano partira cada um dos projécteis
“Benjamim” é o segundo romance de Chico, lançado em 1995 pela Companhia das Letras, quatro anos depois de “Estorvo”. O protagonista, Benjamim Zambraia, é ex-modelo fotográfico, viúvo de uma militante morta na ditadura, que se envolve com Ariela, que pode ou não ser filha da falecida. O romance se abre e se fecha com o pelotão de fuzilamento: a vida de Benjamim aparece como filme projetado sobre a venda dos olhos no instante da morte.
A primeira frase reusa o procedimento de “Estorvo” (narrador diante de armas) mas inverte o desfecho. No primeiro romance, a abertura era cena suspensa: o narrador escapava. Aqui, o fuzilamento se consuma; toda a narrativa é flashback contado retrospectivamente do interior do instante final. O detalhe técnico (“identificaria cada fuzil”) sugere familiaridade do personagem com armas, fato que se compreende ao longo do livro. A formulação técnica e desafetada contrasta com a violência do desfecho.
A estrutura de relato dentro do colapso é central. Benjamim percebe o mundo como câmera passiva, coerente com a profissão de modelo fotográfico, e a vida desfila diante dele sob o controle de outro operador. O romance prossegue a investigação iniciada em “Estorvo” sobre narradores deslocados em ambientes urbanos opressivos, agora com referências mais explícitas ao período da ditadura.
