O casamento como o que faz sociedade
Para parte da antropologia clássica, o casamento não é instituição entre outras: é o mecanismo elementar pelo qual grupos humanos se constituem como sociedade. A formulação de Fabíola Gomes no podcast condensa a tese: o casamento é o que faz sociedade, faz grupo, faz família. Por isso, em sociedades em que essa função está visível, o casamento não pode ser entregue à escolha individual.
A elaboração mais influente do argumento está em Claude Lévi-Strauss, Les Structures élémentaires de la parenté (1949). A tese é direta. As regras de exogamia — a proibição de se casar dentro do próprio grupo de parentesco — não são tabus arbitrários. São o que obriga grupos diferentes a entrar em relação. Ao proibir o casamento intrafamiliar, a sociedade força a circulação de mulheres entre grupos exogâmicos, e essa circulação produz alianças que tecem a vida coletiva. Onde haveria isolamento de células reprodutivas, a regra exogâmica produz uma rede de obrigações recíprocas entre famílias, linhagens, casas e clãs.
A teoria se apoia na dádiva de Mauss. Para Lévi-Strauss, a mulher exogâmica circula como dádiva: dada por um grupo, aceita por outro, retribuída em outro casamento, em geração futura. A reciprocidade é o que mantém os grupos atados. O casamento por amor romântico, em que dois indivíduos se elegem e se casam por escolha pessoal, é, nesse modelo, anomalia tardia: dispensa a aliança como princípio social, transfere a decisão da unidade coletiva para o sujeito, e produz uma sociedade que se imagina como agregação de escolhas individuais e não como tecido de obrigações mútuas.
A consequência analítica para o caso indiano descrito no podcast é direta. Os mais velhos, ao insistir no casamento arranjado, não estão protegendo um costume contra a modernidade: estão preservando a ancoragem da pessoa no coletivo que a produz. Quando dizem que jovens deixados a si mesmos “vão escolher qualquer coisa” — por sexo, por atração física, por bobagem de paixão —, articulam, em vocabulário cotidiano, a tese clássica de que o casamento por amor é antissocial: não faz aliança, não faz grupo, não faz sociedade. Faz indivíduos isolados.
