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Os filósofos metafísicos são músicos sem habilidade musical

Carnap publicou o ensaio em 1932 na Erkenntnis, revista do Círculo de Viena. O alvo é a metafísica inteira, e o exemplo que ele disseca é a frase de Heidegger Das Nichts nichtet (“o nada nadifica”). Não é falsa. É uma pseudo-proposição (Scheinsatz) sem condições de verdade, porque viola a sintaxe lógica da linguagem. Até aí, demolição.

A frase sobre música vem na parte construtiva, e é o que a separa do mero desprezo. Carnap pergunta o que sobra da metafísica depois de retirada a pretensão de conhecimento. Sobra a expressão de uma atitude diante da vida, um Lebensgefühl, e para isso já existe um meio próprio, que é a arte. O sentimento de harmonia que o monista tenta verter num sistema está dito com mais clareza na música de Mozart. Quando o metafísico arma um sistema dualista-heroico, talvez seja porque lhe falta a capacidade de um Beethoven para pôr essa atitude no meio que ela pede. O metafísico quer ser artista e não tem o dom.

O contraexemplo que o próprio Carnap oferece é Nietzsche. O metafísico de maior talento artístico, escreve ele, quase não caiu nessa confusão. Em Assim Falou Zaratustra, onde diz com mais força o que outros tentam dizer por metafísica, não escolheu a forma teórica e enganosa, mas abertamente a forma da arte e da poesia.

A demolição apoia-se no Tractatus, cuja proposição 7 manda calar sobre o que não cabe na linguagem com sentido. O veredito de incompetência que Carnap pronuncia, Borges transforma em elogio. Em Tlön a metafísica é ramo da literatura fantástica, buscada pelo assombro e não pela verdade. E fica a ironia de Carnap convocar a música contra a metafísica, quando para Nietzsche sem música a vida seria um erro. Pouco mais de trinta anos antes, Machado de Assis fizera a mesma equação pelo humor: o filósofo é o tenor que perdeu a voz.