Voltei porque João Gilberto me chamou. Creio em João de modo sobrenatural
Caetano e Gilberto Gil viveram exilados em Londres entre 1969 e 1972, depois da prisão pelo regime militar. Na introdução de 2017 a Verdade Tropical, Caetano responde diretamente à acusação velada de Roberto Schwarz — em ensaio crítico ao livro — de que o retorno teria sido negociado obscuramente com os militares. A defesa de Caetano é direta e curta: “Voltei porque João Gilberto me chamou. Creio em João de modo sobrenatural”.
A passagem segue desdobrando o relato. Caetano conta que Bethânia, em 1971, conseguiu permissão para que ele viesse ao aniversário dos pais; aceitou porque era ela. A volta foi traumática — “preso na escada do avião, levado num fusca a um apartamento na Presidente Vargas para seis horas de interrogatório e ameaças, transportado num camburão para a casa de Bethânia, sob ordens de ir direto para Salvador”. A volta definitiva veio depois, quando João Gilberto o chamou para cantar com ele e Gal Costa: “Vim porque João me assegurou que tudo seria lindo, que ninguém me trataria mal, que no aeroporto eu só encontraria sorrisos”.
A formulação “creio em João de modo sobrenatural” não é figura de retórica. Caetano explicita: “Minha amiga Barbara Browning, professora da New York University, criou, já nos anos 1990, o ‘Cult of João Gilberto the Divine’. Eu o fiz em 1959”. A relação com João Gilberto, fixada na adolescência baiana, funciona ao longo do livro como princípio organizador da fé estética de Caetano na canção popular brasileira.
