Superstição é melhor do que religião
Na introdução à edição de 2017 de Verdade Tropical, Caetano relata a frase no contexto de uma resposta a Roberto Schwarz, que havia criticado em ensaio publicado anos depois do livro original a “superstição” do depoimento de Caetano sobre o retorno do exílio. Caetano descreveu sessões de análise com o psicanalista Rubens Molina e escreveu: “Eu contava detalhes de meus vícios mentais (esses de que falo no capítulo da prisão) e ele, depois de ouvir por bastante tempo, disse: ‘Superstição é melhor do que religião’”.
A frase é atribuída por Caetano explicitamente a Molina, não a si mesmo, e Caetano acrescenta o comentário interpretativo: “Não é frase teórica. Eu não a contraponho à afirmação de Lévi-Strauss de que os homens criaram as grandes religiões para livrarem-se das superstições. Ou ao argumento de Olavo de Carvalho ao defender a religião contra seus detratores com a afirmação de que quem não tem religião (ou renega aquela em que se criou) vira presa de superstições. Não. Era psicanálise”. A formulação serve, no contexto do livro, para responder à acusação de Schwarz de que Caetano teria voltado ao Brasil em 1972 por “superstição” em João Gilberto.
Caetano usa a frase como instrumento polêmico — vira-a contra Schwarz, “preso à grande religião marxista” — mas preserva o crédito ao analista. A passagem é também testemunho de como o livro de 1997 e a introdução de 2017 conversam: o autor da edição comemorativa lê o autor da primeira edição com tanta minúcia quanto leitor estranho.
