Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

Minha primeira motivação para colocar-me à esquerda se mantém até hoje: a horrenda desigualdade da sociedade brasileira

A frase aparece na introdução escrita em 2017, no contexto da resposta de Caetano à crítica de Roberto Schwarz e do clima político posterior ao impeachment de Dilma Rousseff (2016). A passagem completa (“minha primeira motivação para colocar-me à esquerda se mantém até hoje: a horrenda desigualdade da sociedade brasileira”) é continuada por: “E só faz exacerbar-se no clima dos meses recentes, em que o horror dos conservadores finge se dirigir à corrupção quando é nojo e medo dos pobres, pretos e desorganizados, além de impaciência com estes”.

A formulação é direta e abertamente política, incomum no registro habitual de Caetano, mais dado à digressão analítica. A separação entre o discurso oficial dos conservadores (“luta contra a corrupção”) e a motivação que Caetano lhes atribui (“nojo e medo dos pobres, pretos e desorganizados”) opera como denúncia explícita. Caetano se posiciona contra o que chamaria depois de “ultrapassada onda esquerdista que criou uma aristocracia do espírito tola”, mas mantém a chave da desigualdade como princípio organizador.

A passagem é parte de uma sequência que Caetano constrói para situar-se entre liberalismo crítico (Mangabeira Unger, John Stuart Mill) e esquerda crítica (a “esquerda do desbunde”, crítica da esquerda tradicional). O eixo articulador permanece, segundo ele, a desigualdade, não a doutrina, não a sigla. Em outros momentos do livro Caetano descreve como decisivo para sua identificação à esquerda o impacto pessoal do golpe de 1964 e as notícias sobre os campos de “recuperação” para homossexuais em Cuba.